sábado, 1 de setembro de 2012

Literatura de fantasia, regras e perguntas importantes.

Saudações, meus queridos leitores que tem sido abandonados :(. Peço desculpas pela falta de postagens. Essa semana foi mais corrida do que o normal, portanto por isso acabei me afastando mais da internet de modo geral. Mas tenho boas notícias: terminei o conto para a antologia da editora Draco, a Excalibur, a tempo. Essa antologia está sendo organizada pela querida Ana Lúcia Merege, e torço muito para que meu conto seja selecionado. Mas não alimento esperanças XD, porque ele foi escrito em dois dias e sinceramente não sei se ficou bom. 

Pessoal, vocês não sabem o quanto me faz falta ficar em contato com o livro. Como alguns de vocês sabem, dei uma parada na escrita por conta do mestrado e pretendo retomar o Círculo dos Sete no final de setembro ou no começo de outubro. Eu espero mesmo que seja possível, porque, além do mestrado, agora tenho uma outra novidade: consegui uma vaga para dar aulas em uma escola grande de Londrina. É em caráter de substituição e não tenho absoluta certeza de que ficarei lá no ano que vem, mas com certeza essa é uma novidade grande para mim. Já dou aulas há um bom tempo, mas nunca estive em uma instituição tão grande, com regras, minúncias, pautas, prazos, turmas de 30 alunos... estou empolgada com a novidade, mas não sei o quanto isso vai afetar meu desempenho literário XD. Por favor, torçam para que eu me dê bem por lá!  

Mas nada temam!!! Jamais abandonarei o livro 2!!!! Eu jamais deixarei de escrever na minha vida, sério mesmo.

E pensando nisso, eu quero partilhar algo com vocês e pedir suas opiniões. 

Muitas pessoas que entram aqui gostam de fantasia, acredito. Aliás, acho que todo mundo que se interessa pelo livro deve gostar de fantasia. Afinal, temos elfos, profecias, amores complicados, aventuras, espadas, magia... toda aquela mistureba de clichés que a gente tanto ama. Sim, sim, ama sim. 

Desde que finalmente tive coragem para montar o blog e divulgar meus escritos por aí, eu tenho entrado muito mais em contato com esse mundo da literatura e do mercado editorial em si. Tenho conhecido mais escritores nacionais, tenho lido mais sobre editoras, publicações, enfim... tenho me informado. O que faz sucesso? O que não faz? Como se comportam os novos escritores? O que dizem os leitores? É interessante saber. É bom se situar. 

E uma coisa que tenho visto e que, sinceramente, me aborrece, é um certo... digamos... "preconceito" com as obras de fantasia mais "clássicas". 

Elfos: parece que todos já estão cansados deles.
Pasmem, mas muitas vezes eu já vi a expressão "livro de elfo" sendo utilizada como uma coisa pejorativa. Gente, não estou reclamando não, eu simplesmente estou dizendo que me peguei impressionada quando vi isso pela primeira vez! Existe, por exemplo, um twitter humorístico chamado "Os editor pira" em que um escritor iniciante sem-noção (e fictício, ainda bem XD) se gaba de ser disputado a tapas por editoras, que desejam publicar o seu "livro de elfo" com mais de 1000 páginas. A piada é engraçada, sim, porque brinca com os enganos e ilusões que muitas vezes uma pessoa que começa a escrever tem. Diga-se de passagem: achar que ninguém mais escreve e que se está fazendo algo muito especial, achar que são necessárias 100 páginas de enrolação apenas para contar o nascimento do seu herói, achar que será publicado rapidamente e que tem em mãos uma obra muito original (embora eu nunca - nunca - tenha achado isso! Principalmente no quesito originalidade). Enfim, é basicamente uma brincadeira com os clichés de escritores iniciantes. Na época achei engraçado ele ter usado "livro de elfo" quando eu teria utilizado, por exemplo, "livro de vampiro", algo que tem sido muito mais banalizado hoje em dia (mas não significa que tudo que tiver vampiro vai ser chato ou ruim). 

Daí, depois de algum tempo, acabei lendo um comentário no qual uma pessoa dizia que o "escritor do livro de elfo padrão geralmente é apenas um moleque semi-alfabetizado, ingênuo e deslumbrado".  Ou algo assim. Na hora me surpreendi de novo por ver a expressão - "livro de elfo" - ser utilizada novamente de forma tão negativa. E generalizadora, diga-se de passagem. 

E daí, comecei a prestar atenção. Percebi que esse tipo de história não é lá muito bem aceita. Por favor, saibam que não estou prestando alguma reclamação nesse momento, e sim uma surpresa sincera. O ser humano tem uma interminável vontade de ditar regras, e já colhi algumas que devem ser utilizadas na escrita de fantasia. Vamos lá: 

- Não diga que Tolkien é sua maior inspiração. Larga de ser cliché, ok. Esse cara é um chato que só faltava descrever as moléculas de ar. E sua moral ocidentalizada e cristã já está ultrapassada, por favor. Vamos buscar coisas mais transgressoras. Vamos buscar o moderno e o "cult", de acordo com uma pequena parcela de pessoas. 

- Elfos nas florestas, anões nas montanhas... basta! Isso é "brochante pra qualquer um" (desculpem-me o vocabulário, mas foi exatamente esse o comentário que li uma vez). PRA QUALQUER UM, ok?? Sinta-se obrigado a não gostar disso e tentar bolar algo diferente, mesmo que você não queira fazer uma sociedade de elfos tirânicos que escravizaram os humanos ou um mundo de anões aquáticos. 

- Bote muito sexo, sangue, traições e "realidade" no seu livro. Mesmo que esse conceito de "realidade" seja um tanto unilateral e deturpado (veja que gracinha esse artigo. Amo muito esse tipo de comparação, só que não). Se falar mal da igreja ou das religiões em geral, melhor ainda, tá na moda. Mostre o quanto a sociedade é hipócrita e moralista. Afinal, obra de fantasia séria não pode ser apenas de entretenimento. Tem que ser crítica, tem que provocar muitas reflexões a cada página.  

- Palavras em inglês já cansaram. Por mais que a mentalidade americana esteja cada vez mais presente no nosso país, use sempre o português para mostrar o quanto você valoriza o nacional, não importando sonoridade e adequação ao clima que você quer passar. 

É óbvio que estou sendo exagerada, mas a intenção é essa no momento. Por favor, não pensem que eu acho que só devemos escrever de uma forma. É exatamente o contrário. Eu acredito que devem existir livros para todos os gostos. Simplesmente por um motivo: o ser humano tem liberdade de escolha. Tem liberdade de buscar aquilo que ele acredita ser melhor para ele. 

Uma coisa que me incomoda é a opinião colocada como superior, como certa, independentemente do caso, do contexto. E essas opiniões geralmente vêm revestidas de palavras bonitas e embasadas por um suposto conhecimento elevado, muitas vezes obscuro. Ou então vêm revestidas de pura ironia, sarcasmo e até mesmo desrespeito. Claro que todo mundo tem seus momentos. Ninguém é comedido e respeitoso o tempo todo. Temos todos nossas paixões, nossos fervores, nossas certezas. Mas tem gente que se impõe ininterruptamente como sumidade.

Vejo muitas pessoas bradarem que o mercado está cheio desse tipo de livro, que "fanfics de Tolkien" são uma praga por aí, mas confesso que ainda estou procurando onde todos esses livros se escondem nas livrarias (admito que talvez seja muito mais limitada do que essas pessoas, mas aqui estou relatando minha experiência pessoal). Se me disserem que existem milhares de romances sobrenaturais com seus vampiros, anjos, mortos-vivos, fadas e lobisomens apaixonados, daí sim posso concordar. Existe mesmo uma profusão dessas obras, que podem ser boas ou ruins, como tudo na vida.

Nunca vi Dragonlance, trilogia do Vale do Vento Gélido ou similares em destaque na maior livraria da minha cidade. Pelo menos aqui em Londrina, obras de fantasia que apelam a um público que curte esse tipo de história (olá, jogadores de RPG!) não estão a venda em profusão. As obras dos escritores nacionais que se aproximam desse estilo já são difíceis de achar.

Posso dizer a vocês uma coisa: eu amo escrever, mas o que mais me motivou a inventar alguma coisa e colocar no papel foi exatamente a falta que eu sentia de histórias que me encantassem. Que tivessem lá seus elfos e anões e um grupo de aventureiros no melhor estilo medieval romantizado... sei lá, tem algo de tão errado nisso?

Eu sou uma pessoa que criou uma história muito da modesta, que tem falhas, furos e imperfeições. Sim, eu preciso ler mais, me informar mais. Sim, eu confesso que não conheço muitos autores que deveria conhecer, confesso que não leio tanto quanto deveria.  Eu não tenho o conhecimento que deveria. Não saio por aí citando Hemingway, T.S. Eliot, Poe, Yeats ou mesmo Shakespeare (embora tenham trabalhos maravilhosos, mas dos quais eu conheço uma ínfima parte). Falando não só do clássico mas também do "pop consagrado", nunca li ao menos Douglas Adams e seu Guia dos Mochileiros e pouco li de Neil Gaiman, embora o que tenha lido tenha me agradado bastante. Não, não sou cult e nem mesmo culta comparada a tantas pessoas que admiro muito por seu conhecimento e humildade (entre elas estão vocês que sempre passam por aqui =), e tantas outras que adoram erguer seus inteligentes narizes por aí.

Não estou dizendo que não gostaria de conhecer mais a fundo tudo isso (é claro que gostaria! Eu gosto de ler). O ruim é usar o que se conhece como uma medalha e afirmar o que se deve ou não se deve ler ou escrever, o que é digno de ser apreciado e conhecido ou o que não é. Se Harry Potter não me levou a Shakespeare ou qualquer outro clássico, Machado de Assis ou Saramago também não me levaram. Acho que o que me levará a qualquer autor é a vontade natural de conhecê-lo, e não a obrigação de ler algo para mostrar o quanto sei, o quanto conheço. Como se contasse estrelinhas para pendurar em um mural.


Eu posso ter escrito apenas um "livro de elfo" padrão, e posso ter consumido pouca cultura no sentido mais restrito do termo. Mas não fui, ao menos, apenas uma consumidora passiva. Tentei botar em palavras aquilo que nasceu dentro de mim. E jamais terei vergonha de admitir que há o que ser melhorado, que há coisas infantis ou não tão bem desenvolvidas dentro da minha história. Eu nunca quis um dia declarar que minha obra era originalíssima ou que estava escrevendo um futuro best-seller.

Eu simplesmente, no momento em que me sentei pela primeira vez na frente do computador, estava fazendo algo que amava. Não significa que não mereça cuidado, atenção, correção (o que a gente ama a gente quer ajudar a melhorar, de qualquer forma). Não significa que eu não deva me esforçar para melhorar.

Mas também não significa que eu deva parar de escrever o que gosto, certo? (claro que ninguém me falou para parar. Essa é só uma reflexão, porque a gente tende a se influenciar pelas opiniões alheias, é claro).

Não significa também que o que eu escrever não terá seu público, e que esse público, por meu livro ter elfos, magia, aventura, clichés, será de gente boba e ingênua (e as pessoas que passam por esse blog são a MAIOR prova disso).

Enfim, pessoal, desculpem pelo post enorme. Desculpem pelas palavras que podem dar a impressão de que estou generalizando. Não estou dizendo que não gosto de livros com aquelas características que citei como regrinhas lá em cima, ou que não leio nada fora da fantasia clássica. Não é isso mesmo.

De qualquer forma, gostaria de saber o que pensam disso. O que pensam sobre a literatura de fantasia, digamos, mais "clássica". Vocês gostam? O que faz com que se interessem por um livro? O que mais os motiva a ler? O que gostam de escrever? E se gostam de escrever, por que escrevem? 


12 comentários:

  1. Em todas as área da vida é muito comum acontecer o seguinte: Alguém inexperiente ou mesmo tolo vem com uma ideia nova, e, como não sabe de que forma fazer as pessoas se atentarem para ela, começam a criticar algo de bom que foi feito anteriormente. E muitas vezes, esta "briga" começa e foge do controle não por causa de escritores, mas por causa de fãs imaturos e inseguros. Apenas para citar um exemplo: Martin, mesmo aclamado e muito talentoso, jamais disse que seus livros eram superiores a O Senhor dos Anéis, mas muitos fãs de Game of Thrones insistem em fazer a comparação, e por pura tolice, sentem que ao desmerecer o trabalho de Tolkien, estarão exaltando o trabalho de Martin. Uma das primeiras coisas que vi na internet os fãs do novo filme do Batman fazerem foi explicar "o quanto Batman era melhor do que Os Vingadores", quando a comparação, além de vazia, não tinha propósito algum além de tentar valorizar seu filme favorito criticando um outro filme igualmente bom. O que acontece com a fantasia medieval (e com outros gêneros também) é que trabalhos muito bons foram desenvolvidos nestes campos, e que valores totalmente incompatíveis com os que temos hoje foram muito bem apresentados em algumas destas obras. As pessoas titulam fantasia medieval clássica como algo imaturo, alegando que a coisa madura a ser lida é algo que necessariamente contenha cenas de sexo, valores dúbios e violência totalmente gratuita que serve apenas para exaltar a crueldade ou brutalidade de certos locais e personagens. O que isto tem de "maduro" ou "original", até hoje ninguém foi capaz de explicar. Robert E. Howard, o criador de Conan, era um homem bastante cético e pessimista em relação à civilização e ao ser humano. Em uma de suas cartas, ele disse algo muito interessante sobre o uso cada vez mais intenso de cenas de sexo ou violência gratuita; ele disse que toda sociedade, quando está muito perto de um "abismo" de degradação moral, se volta com cada vez mais força para o abuso do sexo e da violência, como se estas duas coisas, se devidamente usadas e escandalizadas, fossem funcionar como drogas que aplacam um pouco a frustração e o vazio das pessoas. Não estou dizendo de forma alguma que quem aprecia autores que se valem de sexo e violência desmedida para venderem suas obras necessariamente têm problemas emocionais ou estão tentando compensar algo. Conheço diversas pessoas que apreciam muito Game of Thrones ao mesmo tempo que reconhecem o valor dos trabalhos de Tolkien, por exemplo. O problema, como sempre, está no extremismo de algumas pessoas, que por causa da própria insatisfação e insegurança, perdem muito tempo tentando denegrir ou ridicularizar gêneros diferentes.

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  2. Sempre achei essas comparações difíceis e desnecessárias. Tolkien é Tolkien e Martin é Martin. Aliás, se fosse para comparar o Martin com alguém, deveria ser com o Cornwell, que tem um estilo bem mais parecido com o dele.

    Sobre a fantasia clássica, vamos relembrar que o objetivo dela é oferecer ESCAPISMO, permitir que escapemos de nossas realidades estressantes imergindo em mundos ficcionais DIFERENTES do nosso. Por isso, faz sentido que não haja na fantasia clássica tanto sangue, sexo e baixaria quanto no cotidiano atual.

    Usar o termo "livro de elfo" como algo pejorativo é algo tolo. Elfos são parte do gênero e são elementos importantes nesse tipo de obra. Generalizar livros que contenham elfos é um desrespeito aos autores que procuram criar histórias críveis e divertidas com eles.

    Vocês sabem que estou escrevendo um "livro de anões". Eu poderia ter pensado em inventar uma raça única, inexistente em qualquer outro título presente nas livrarias, mas EU QUIS escrever sobre uma raça já exaustivamente descrita, porque queria dar minha visão particular sobre ela, aproveitar o potencial dela.

    Existe espaço para a fantasia "clássica" do Tolkien, para a fantasia "suja" do Martin e do Cornwell, e espaço para quem mais quiser ingressar no mercado literário com qualquer subgênero de fantasia DESDE QUE SEJA DE QUALIDADE.

    Pena que também existe espaço para pseudocríticos chatos menosprezarem certos estilos e livros por puro preconceito ou por generalização.

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  3. É... Complicado. Eu curto esse tipo de literatura, independente do que digam. Se eu não ler o que gosto, vou ler o que ditam como "legal"? Onde está a subjetividade? Quantas vezes me disseram que determinada coisa era legal e, quando fui ver, não vi nada que me chamasse a atenção (e vice-versa). E tenho certeza de que isso acontece com meus livros também. Há conhecidos meus que leram o primeiro livro, mas nem se incomodaram em dar sequência na história. Por serem meus conhecidos, lógico que fiquei muito pensativa quanto a isso, mas vou fazer o quê? Não quer ler, não quer. Não gostaram? Beleza... Eu agradeço pela leitura Tem quem gostou e leu até saber o final de tudo, pessoas que agradeço também, de coração.

    Enfim... Eu escrevo porque gosto de escrever, porque não consegui tocar pra frente meu sonho de trabalhar com histórias em quadrinhos e por ser uma forma de expressão. Todas as minhas ideias para os quadrinhos eu coloquei em forma de narrativa. Narrativa que só consegui melhorar depois de ter começado a gostar de ler. Só comecei a gostar de ler depois de ter lido Tolkien e muitos RPGs por aí.

    Quem fica ditando por aí o que tá na moda ler ou não, pra mim, além de não tem o que fazer, pelo jeito não sabe fazer melhor. Cada um lê o que quer, contando que não fique rebaixando o trabalho dos outros.

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  4. Obrigada pelos comentários, pessoal. Olha, eu peço desculpas pelo teor do post, foi mais um desabafo mesmo. Talvez tudo isso tenha me chamado atenção pelo fato de realmente ter me surpreendido. Talvez eu só esteja mais cansada essa semana e tenha ficado de saco cheio XD.

    Quis expor essas coisas que notei para saber a opinião de vocês mesmo. Vocês três que já comentaram (Odin, Jaco e Gisele) escrevem fantasia também, e é bacana saber como pensam sobre isso.

    Concordo muito com tudo o que disseram. Também acho que comparações são inúteis e desnecessárias. Acho que a Melissa do Livros de Fantasia falou uma vez que comparar Tolkien e Martin é como comparar sorvete com chocolate, e eu concordo :).

    Também acredito que exista espaço para tudo, desde que seja feito com qualidade. E é essa qualidade que deve ser avaliada em uma obra. Desmerecer algo por conta da presença de elfos, anões ou clichés da fantasia é algo que não me entra na cabeça.

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  5. Leonardo Viera Andrade2 de setembro de 2012 00:08

    Essas briguinhas de “haters” é a coisa mais estúpida do mundo! Conseguiram trazer a bestialidade que existe entre torcidas de futebol para o qualquer forma de entretenimento de hoje. Todos esquecem que a melhor coisa das diferenças nas histórias (em qualquer outra coisa) é combinar os elementos destas e criar uma nova história e seguir em frente.

    Para mim esses novos contos que são denominadas como mais “maduras” são um baita erro de classificação. Eu não gosto, e como psicólogo NÃO ACEITO, é essa banalização de violência e sexo. Na minha opinião, as histórias maduras são aquelas onde os heróis são pessoas que possuem falhas, mas enfrentam o mal (malignos mesmo), que são tentadas a desistir ou tomar o caminho mais simples para resolver os problemas, só que não desistem e fazem verdadeiros sacrifícios para trazer a esperança aos inocentes e derrotar os vilões. A guerra de Zarus foi exatamente isso. Transportamos todo o horror do nazismo para o mundo de fantasia e quebramos o paradigma da raça humana ser sempre heróica. Só que os heróis foram heróis! Eles acabaram com o preconceito, mesmo que momentaneamente, entre orcs, elfos, halflings e humanos, e varias religiões inimigas para lutar pelo simples direito de viver livre e com dignidade.

    Eu e meus amigos gostamos muito do clichê, mas adoramos usar o bom e velho “como seria se tivesse isso no mundo de fantasia clássico?” Graças a isso temos um cenário clássico que possuem algumas inovações sem deixar de perder o espírito clichê. Tanto que as “Crônicas do Caçador” são exatamente isso (Como seria uma história em que aparecesse o Predador em um cenário clássico?). Muitas das coisas que adaptamos (plagiados: nada se cria, tudo se copia, hahahahahahaha) são tiradas de outras fontes. No lugar de perdermos tempo discutindo se Warhammer é melhor que Greyhawk, adaptamos o que gostamos de Warhammer, Pathfinder, Terra Média, etc, no nosso cenário, tendo o bom exemplo o Khaine, o deus da guerra dos elfos, e ele caiu como uma luva para o nosso cenário, pois não havia nenhum deus élfico que retratasse a guerra como uma coisa brutal horrível e viciante da forma como ele retrata, uma comparação boa seria isso: Corellon é amado, Lolth é odiada, e Khaine é temido. Isso gerou um personagem que possui uma batalha espiritual grande que encontra equilíbrio emocional na família (o Rhorvals) e um novo vilão e uma sub-raça nova (os Elfos do Sangue). Isso tudo se deu ao fato de se usar aquilo que gosta sem banalizar.

    Quando escrevi as Crônicas do Caçador (aventura que meu irmão mestrou), eu realmente fiquei preocupado de que iria aparecer haters e trolls! Jurava que apareceria gente dizendo coisas do tipo: estava enrolando a história demais. Que era absurdo colocar extraterrestres em uma ambientação clássica. Que o Predador estaria denegrindo a imagem dos elfos, orcs, anões, etc e etc.
    Tentei misturar os elementos narrativos do Tolkien, descrever de forma excelente o ambiente, e do Martin, focar a personalidade dos indivíduos, junto com a sensação de medo do desconhecido do Lovecraft e a ação aterrorizante dos filmes do Predador. Eu não sei se consegui sucesso, mas não se preocupem, pois irei continuar a escrever quando conseguir tempo disponível.

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    1. Eu entendo esse seu medo, Leonardo. E acho ele normal. As pessoas muitas vezes realmente não gostam de ver as coisas misturadas, muitos preferem também que esteja tudo em seu lugar. Eu, por exemplo, deixei o meu mundo de fantasia bem tradicional, mas nunca vou criticar algo por estar diferente ou misturado. Eu particularmente gostei bastante das Crônicas do Caçador (ao menos do que li até agora XD).

      Posso até dizer, por exemplo, que não curti algo muito misturadão, mas vou saber separar as coisas. Vou admitir que é meu gosto pessoal que interfere - não tem nada a ver com ser bom ou não, e sim com preferência. O que eu acho que acontece muito é isso: as pessoas aplicam suas preferências como se elas ditassem padrões de qualidade, e por vezes nem percebem que estão fazendo isso, por encontraram apoio em discursos vigentes, ou mesmo da crítica especializada.

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  6. Odin, você tirou as palavras da minha boca. Concordo sem tirar nem por com o que você disse. Muitas vezes essas pessoas que criticam um gênero só estão querendo promover o que gostam e parecer cults.

    Nem vou comentar sobre essas "regras". A coisa mais ridícula que eu já li em toda minha vida. Dizer que um livro só é bom quando tem sexo e violência e critica a igreja é ridículo. Eles estão fazendo justamente o que estão criticando: reduzindo e simplificando algo. Só que ao invés de romantizar estão banalizando.

    Eu gosto muito de fantasia clássica e acho que é possível sim inovar dentro desse texto sem precisar apelar pra sexo e violência. Tudo depende do jeito que você amarra o enredo, as questões que você discute, o modo com que apresenta seus personagens. Não vejo o mercado saturado desses livros não e não acho que é um gênero fadado ao esquecimento. Isso é papo de quem é fã cego de Guerra dos Tronos, infelizmente. Mas temos que pensar que sem O Senhor dos Aneis, Guerra dos Tronso nunca existiria. E como a Liége bem lembrou, é comparar chocolate com sorvete.

    Eu acho O Senhor dos Aneis um livro excelente que apresenta personagens e questões inesquecíveis. Não acho de forma alguma que seja um livro ingênuo.

    Bem, não acho que literatura de fantasia clássica seja um escapismo. Na verdade tudo que escrevemos em forma de fantasia fala mais da nossa realidade do que de fantasia. Mesma coisa com ficção científica.

    Enfim, eu fiquei revoltada com essa de "livro de elfo". Além de uma falta de respeito, é uma falta de noção. E como a Liége bem disse: tem livros bons e ruins em todos os gêneros.

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    1. Concordo com você, Melissa. Essas pessoas geralmente fazem o que mais criticam, só que embasadas em valores que para elas são indubitavelmente certos.

      Eu também não vejo o mercado saturado (não mesmo!) e não acho que esse é um gênero fadado ao esquecimento mesmo. Eu espero que não, ao menos. Por que apesar de tudo, tem muita gente que gosta desse gênero. E, ao meu ver, esse público está um pouco carente, de verdade. Estamos em um momento mais voltado para o sobrenatural e as distopias por exemplo, e o grande sucesso da fantasia é Guerra dos Tronos, uma fantasia mais "suja" e realista. É difícil encontrar algo que esteja mais na linha da fantasia clássica. Ou ao menos as editoras não estão investindo na publicação e no marketing de obras como essas com tanta força.

      Também não acho O Senhor dos Anéis uma obra ingênua. Foi um livro que me marcou muito, e não tenho vergonha de admitir que me inspira.

      Admito que a fantasia clássica funciona para mim como escapismo muitas vezes, Melissa. Mas é claro que a fantasia também fala muito da realidade. Acredito que a fantasia tenha um grande poder de fazer alegorias e discutir nossos valores e mundo, mesmo que sutilmente.

      Essa de "livro de elfo" também me deixou meio perplexa. Achei esquisito que as pessoas usassem de forma pejorativa. Como disse o Jaco, é um elemento clássico, que faz parte da fantasia. Falar assim é desrespeitar muita gente que escreve e se esforça para usar esses elementos dentro de histórias boas, respeitando um público que tem apreço pelo clássico.

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    2. Eu não nego que o livro do Martin seja um grande marco na história do gênero. É sim um livro de excelente qualidade e que subverte várias coisas da fantasia. Mas assumir isso e dizer que "O Martin é único que escreve fantasia que presta" são coisas muito diferentes.

      Existe fantasia clássica para crianças, adolescentes, jovens e adultos. Cada uma com suas peculiaridades. Jogar tudo no mesmo balaio é igualar dizer que ficção científica é tudo igual. Dentro de gêneros, sempre existem subgêneros.

      O que me parece é que esse autor do texto simplesmente prefere o subgênero realista. Pronto. Não há nada de errado nisso. Mas daí a dizer que o resto é lixo...

      Acho que sempre terá público pra fantasia clássica. Obviamente que temos que buscar inovar e talz e não simplesmente ficar repetindo uma história que já foi contada mil vezes... mas alguns elementos sempre farão parte do gênero: herói perdido, o mestre, a bruxa... Isso não é necessariamente algo ruim.

      Obviamente que já li muita fantasia clássica ruim. Já li livro de gente que disse nunca ter lido fantasia clássica, o que um absurdo. Mas enfim. Mas o que determina um livro ser ruim ou bom não é o gênero que ele pertence nem os personagens que ele apresenta e sim "como" a história é contada.

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    3. Concordo plenamente, Melissa! É isso aí mesmo. Também acho que o Martin é um marco e respeito muito, mesmo admitindo que não é meu estilo favorito (por ser mais realista mesmo). Mas acho que esse é o ponto principal: admitir que existe a questão da preferência pessoal, do que você mais gosta, e que essa preferência é sua, é particular. Não é parâmetro para julgar a qualidade de uma obra. Eu nunca disse que um livro era ruim por ser realista (para mim o que conta é mesmo a qualidade!), mas o que noto é que o contrário acontece muito: as pessoas dizerem que um livro é ruim por ser muito "ingênuo", muito "fantasioso", muito idealizado, e assim vai.

      E acho que o importante é não confundir o que é preferência sua com o que é bom ou não. O problema que tenho notado é que muita gente simplesmente acha que só é bom aquilo que ele/ela gosta, mesmo que nem ao menos percebam que estão fazendo isso.

      Sim, "como" a história é contada é o mais importante! Acho que é isso que se deve ter em mente.

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  7. Bom, como autora de "livro de elfo", não é muito mais o que posso acrescentar. Apenas o que já se disse aqui: que não devemos abrir mão de escrever sobre os temas que adoramos e os universos em que gostamos de passear. Sempre crescendo como escritores, claro - escrever bem e agradavelmente independe do tema e do gênero - mas sem nos obrigar a abandonar nossas terras de fantasia só porque alguns torcem o nariz para elas! :)

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    1. Então, Ana... quando eu li essa declaração, eu não fiquei só incomodada por mim, mas também por você, pela Gisele, pelo Odin, pelo Jaco, e todo mundo que eu conheço e que coloca os elfos nas suas obras XD. Mesmo sabendo que essas coisas não devem pesar (porque todo mundo tem o direito de expressar sua opinião por aí, e se eu me deixo afetar é por culpa própria), quando eu percebi o padrão se repetindo em outras entrevistas, outros artigos, tweets e etc, eu senti vontade de me manifestar. Afinal, é fácil se colocar por cima e não procurar ao menos compreender o porquê das pessoas estarem utilizando certos elementos, certos clichés, certos estilos... talvez seja porque essas e outras pessoas gostem, e pronto. Não significa que não farão boas histórias - como a Melissa sabiamente disse, o que importa é o "como" se conta, independentemente de gênero. Qualidade acima de tudo - qualidade que talvez meu livro nem tenha, mas se não tem, não é por causa dos "elfos" e de certos clichés da fantasia dos quais me utilizei. É porque ainda preciso amadurecer minha escrita e pronto.

      Mas é isso aí! Não devemos abandonar aquilo que gostamos, porque, de outro modo, a viagem acaba não valendo a pena :).

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