quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Pai

Temo que esse conto seja grande demais para ser postado aqui, mas dividi-lo não faria muito sentido. Então, eu vou postar inteiro mesmo. Ele deveria ter saído no dia dos pais, mas não consegui terminá-lo a tempo. Aqui vai uma história envolvendo a relação pai-filha mais "emblemática" de O Enigma da Lua. 

***
Pai

Fonte
Os dedos da menina entrelaçavam-se nervosamente em seus cachos. Eles eram claros, tão claros como o amanhecer nebuloso daquele dia.

Valenia nascera com todos os traços da mãe: os cabelos loiros, os olhos azuis, a boca bem desenhada, o nariz delicado e levemente arrebitado. Era uma criança encantadora em sua aparência, mas os trejeitos já estavam carregados de certa prepotência. Infelizmente, da mãe ela também parecia ter herdado a personalidade expansiva, irritadiça e egocêntrica.

Contudo, quem a visse em casa, naquele dia, talvez pudesse entender que a pequena Valenia era apenas uma criança perdida em seu caminho. 

Os olhos azuis perscrutavam o tampo da mesa, e subiam para o rosto impassível da mãe. Nenhum sorriso. O semblante continuava tão fechado e amargurado quanto antes. Nyra a olhava de volta, como se dissesse que ela não tinha permissão para agir de modo diferente. Valenia baixava a cabeça, dizendo repetidas vezes um silencioso “sim”.

A menina ouvia o som de mastigação ecoar pela sala. Comiam pão e queijo naquela manhã, e havia também peixe defumado. Valenia divagou por um tempo, imaginando que seria ótimo comer um pêssego se sua mãe deixasse. Foi nesse momento que ela, distraidamente, olhou para seu pai.

Não devia ter feito aquilo.

Seu coração encolheu-se. Será que não diriam nada?

Há dois dias atrás, Nyra e Dufel haviam brigado. Era muito comum que brigassem, mas, por vezes, a briga era maior e então aquilo acontecia. Silêncio. O som do silêncio era o pior som do mundo. Parecia alastrar-se como uma doença difícil de curar.

Valenia lembrou-se de uma vez em que os pais haviam discutido e, no mesmo dia, Dufel resolvera leva-la para comprar amêndoas açucaradas na feira da praça. Valenia voltou para casa saltitante, com um pequeno embrulho nas mãos, pronta para devorar seu doce presente.

Lembrava-se ainda hoje do olhar que a mãe lhe dera naquele dia. E de suas palavras cortantes.

“Está do lado dele agora, porque te deu doces? Parabéns, Dufel. Você sabe comprar a nossa filha”.

Ela se recordava de ter tremido com o pacote nas mãos, sem saber para que lado ir. Dar a mão ao pai novamente seria uma traição. Sendo assim, andou em direção à mãe, mas o olhar triste de Dufel e seu silêncio, única resposta à acusação da mulher, detiveram-na. Por fim, Valenia tremeu tanto, indecisa no meio do caminho, que o pacote caiu no chão e as amêndoas se esparramaram, servindo de alimento para os cachorros que vieram farejá-las vorazmente.

Demoraria ainda muitos anos para que Valenia compreendesse que não era ela que fazia algo errado naquelas situações.

Dufel e Nyra estavam no meio de uma dessas brigas que deixavam a casa toda em silêncio. No entanto, aquele era um dia horrível para isso. Era o aniversário... o aniversário de seu pai.

- Você sabia que quando você nasceu estava chovendo?

Era a voz dele. De Dufel. Ele quebrara o silêncio. Valenia ergueu os olhos para o pai como se ele tivesse acabado de cometer um ato hediondo.

- Pois sim. Você chorava tanto, tanto, e num tom tão agudo, que concluímos que cresceria para ser uma barda.     

Não era a primeira vez que ele contava aquela história. Devia ser a milésima. Ele sempre dizia aquilo. Repetia a parte da chuva como se fosse um bordão. Era uma espécie de brincadeira que Dufel fazia, quase todos os dias e também quase todas as noites, antes de ela dormir.

Quando eles brigavam, no entanto, ele ficava quieto. Não dizia nada. Não voltava à noite – ficava na muralha, fazendo a vigília. Não dizia que ela nascera chorando, em um dia de chuva. Ficava simplesmente em silêncio. 

- Você parecia uma rãzinha – ele continuou – era pequena, com pernas longas e finas. Mas vermelha, muito vermelha. Os cabelos eram tão claros que você parecia ter nascido careca...

Nyra encarou Dufel. Valenia, que prestava atenção ao pai, estremeceu e empertigou-se na cadeira, virando o rosto para baixo. Não viu o diálogo silencioso que se desenrolou entre os dois, entre os olhares de raiva da mãe e de insistência do pai.  

- Nasceu no meio da guerra e me trouxe a paz – ele terminou, ainda olhando para Nyra.

A menina começou a enrolar os cabelos nos dedos, novamente. Olhava para o chão sem ousar falar qualquer coisa. E então, algo inacreditável aconteceu.

A troca de olhares entre Nyra e Dufel produziu alguma coisa. A mãe levantou e se foi, sem chama-la ou exigir que ela a seguisse. Simplesmente virou as costas e desapareceu, subindo a escadaria que levava até seu quarto.  Não olhou para trás. Talvez fosse um ato de trégua pelo aniversário dele. Talvez Nyra simplesmente estivesse irritada demais para discutir. Ela nunca saberia.

Valenia levantou a cabeça e olhou para Dufel. O pai sorriu.

- O que acha de ir até a feira hoje? – ele disse.

A menina ficou em silêncio. Balançou a cabeça vagarosamente, em negativa. Não podia ir. O pai suspirou.

- Você não precisa ter medo, filha. Sua mãe não vai fazer nada se vier comigo.

Os olhos azuis dela se encheram de lágrimas. Não iria. A mãe se sentiria abandonada. Deixada de lado. Afinal, Dufel tinha a cidade inteira para amá-lo. Os habitantes, os homens da milícia, a clériga do templo... Todos gostavam dele. Nyra tinha apenas ela, Valenia. Era a única amiga da mãe. Era do lado dela que devia ficar. Ao menos era isso que ela dizia. Era isso que pedia.

“Eu só tenho você, Valenia”.

- Eu vou trabalhar – Dufel disse, desistindo, e beijando sua testa – Fique bem, querida.

Ele se levantou. Já iria? Não tentaria mais? Bem, era melhor assim. Era melhor que cada um soubesse o seu papel.

Valenia ouviu os passos de Dufel, e depois ouviu a porta se abrir. Estava paralisada na cadeira, mas no coração uma vontade crescia.   

Pulou, finalmente, e correu até os fundos da casa. Foi ao jardim em desabalada carreira, arrancou uma das margaridas brancas que cresciam ali, e pediu que suas pernas conseguissem alcança-lo. O peito refletia as batidas descompassadas do coração. Ela respirava ofegante, mas sorria com os olhos e as bochechas vermelhas.

Quando chegou até o portão, não viu o pai. Abriu-o, vagarosamente, e saiu, esperando encontra-lo ainda por perto. Traçou o caminho que ele costumava tomar para chegar até o prédio da milícia. Não devia estar longe...

Foi então que ela estacou. A margarida estremeceu em sua mão, que pendeu ao lado do corpo. Alguém já encontrara seu pai, e estava fazendo um serviço muito melhor do que o dela.

Driali, a sacerdotisa chefe do templo da Lua, e seus dois filhos haviam interceptado Dufel no caminho. A menina, Elora, entregava a Dufel algum embrulho, muito maior do que a margarida de Valenia, com seus olhos doces e cativantes. Dufel sorria largamente. Ajoelhou-se e acariciou o rosto da jovem elfa, provavelmente agradecendo. Colocou o pacote debaixo do braço. Ele ergueu o olhar e começou a falar com Driali. Até mesmo Valenia podia perceber que, naquele dia, ele não precisaria falar com mais ninguém. Ele só tinha olhos para ela. Era como sua mãe dizia.

Valenia virou as costas e jogou a margarida no chão. O rosto estava banhado de lágrimas silenciosas. O silêncio também a atingira agora.

- Senhor Dufel – ela ouviu alguém dizer – Sua filha. A Valenia.

Ela parou de andar. Alguém a vira. Era a voz do filho mais velho de Driali, Myron. Ela não gostava de Myron. Mas ele a vira.

- Valenia? – o pai disse – Filha?

Ela não teve nem tempo de virar-se. Sentiu os braços do pai levantando-a, e sentiu os beijos dele em sua face molhada. Estava feliz. Estava feliz por tê-la ali. Ele olhou para ela, sorrindo.

- Hoje você vem comigo – ele disse – Hoje esse é o meu presente.

Valenia jogou os braços ao redor dos ombros do pai, rendendo-se. As lágrimas continuaram a rolar, abundantes. Ela teve um vislumbre de Driali, Elora e Myron olhando para eles. Não se importou.

Afundou o rosto no peito do pai e deixou-se ser sua filha.  

12 comentários:

  1. Que bonito! Nossos livros são cheios de aventura, mistérios, às vezes alguma violência. É bom ter também desses momentos de simples ternura.

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    1. É verdade, Ana! Que bom que você gostou!

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  2. Pelas minhas barbas, esta é uma história muito bem escrita. Muito triste, mas nos ajuda a entender melhor vários comportamentos de Valenia.

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    1. Obrigada, querido... pois é, esse conto contribui um pouquinho para o entendimento da Valenia, né?

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  3. Amanda "Chorona" Silversong18 de agosto de 2013 12:10

    Sniff, sniff :(

    Nossa, fiquei chorando aqui que nem uma boba! Tadinha da Valenia !!!!!!!

    Este conto ficou muito lindo, Li, parabéns ^^

    Mandei o link para minha amiga Ju, porque tenho certeza de que ela vai se identificar A LOT!

    Infelizmente :(

    Beijos da Amanda Chorona ^^

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    1. Oi Amanda, que bom te ver aqui! Ficou meio triste esse conto, né? Eu fiquei com o coração apertado enquanto escrevia, mas ao menos no final o Dufel e a Valenia tem o momento que merecem! Não é nada fácil para um criança pequena ter que "escolher" entre um dos pais.

      Mande meu abraço solidário para sua amiga Ju, pois essa não é uma situação bacana :(.

      MAS, MAS, o segundo livro trará muitas coisas boas para a Valenia. Então, nada de ficarmos tristes :D

      Beijos!!

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  4. Pelas barbas de alguém bem barbudo!

    Palavras como "sensacional", "espetacular" e "extraordinário" não são suficientes para elogiar a qualidade deste texto.

    Parabéns, Lady Liége.

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    1. Muito obrigada, nobre Jaco! Eu achei que você gostaria por se tratar de um conto com a participação da Valenia :D!

      Fico muito contente que tenha apreciado essa história!

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  5. Lembro de vc ter comentado há algum tempo atrás que tinha certa dificuldade em criar contos... acho que esta fase já está bem superada =)
    Um conto tão intenso, emocionante e belo, de encher os olhos de lágrimas!
    Parabéns!

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    1. Ai, Angela, que bom que você gostou. Eu ainda tenho dificuldade sim, mas ando tentando superar, pois contos são um bom exercício de escrita. Eu gostei bastante de escrever esse, e fico feliz que vocês tenham apreciado ele por aqui :).

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  6. Olha eu atrasada aqui ^_^

    É... A infância da Valenia não foi bolinho não. Show de bola o texto \o/

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    1. Obrigada, Gisele! Fico muito feliz que tenha gostado. Muito mesmo.

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