sexta-feira, 11 de abril de 2014

Por que as pessoas menosprezam a fantasia?

Você não quer entrar?
O questionamento feito no título do post me acompanha desde a adolescência. Foi na adolescência que eu tomei consciência da minha paixão por criar histórias com essa temática, embora eu tenha gostado de fantasia (principalmente medieval) desde que me conheço por gente - isso veio comigo e nunca mudou. Tanto que meu filme favorito quando pequena era Willow - Na Terra da Magia, fantasia clássica com a típica jornada do herói em sua trama. 

Quando eu tinha 15 anos, em 2001, O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel estreou nos cinemas. Antes disso eu já havia lido os livros e conhecia a história e, obviamente, estava encantada - mas foi com a explosão de Tolkien nos cinemas e o meu consequente envolvimento com o RPG que me vi cercada por um mundo do qual não queria mais sair. Eu descobri muitas coisas novas, coisas que nunca havia visto ou lido antes. Devorei Dragonlance e a trilogia do Vale do Vento Gélido, li As Brumas de Avalon, escutei metal melódico pela primeira vez e as nuvens se abriram ao som de The Village of Dwarves. Antes disso, simplesmente não tinha um grupo de pessoas que conhecesse e me mostrasse essas coisas. Por isso essa foi uma época muito importante para mim, uma descoberta um tanto tardia de coisas que eu teria gostado muito desde uma época mais tenra. 

Mas, eu me lembro até hoje de uma discussão que tivemos em uma aula de geografia no colégio onde estudava. Uma professora de quem eu gostava muito, muito mesmo, ouviu a gente conversando sobre O Senhor dos Anéis. Alguém perguntou a ela se ela curtia, ao que ela respondeu que não, que preferia viver a vida real, que não gostava dessas coisas de elfos e anões. O tom dela e sua expressão diziam que ela achava aquilo tudo uma grande besteira. E isso, embora não tenha me deixado chateada na época (ela era, afinal, uma boa professora e eu realmente gostava dela), foi uma coisa que me marcou. Nunca esqueci das palavras dela e me lembro que na época fiquei me perguntando o que é que a afastava da fantasia, já que para mim esse gênero era uma paixão que me levava a escrever, era algo que não me tirava da vida, apenas me fazia enxergá-la de modo diferente. 

Quando entrei na faculdade, esse tipo de opinião se tornou uma constante por parte de professores e alunos. Em Letras ninguém queria tratar desse tipo de literatura, Tolkien era motivo de chacota, e a atividade favorita de muitos alunos era zoar Paulo Coelho e fazer arzinho de superior ao falar o quanto seus escritos eram um lixo. Escuta, eu não amo de paixão Paulo Coelho, mas não conseguia compreender esse prazer tão grande em menosprezar a literatura mais popular e a de fantasia. 

Até hoje não entendo muito bem certos argumentos utilizados para menosprezar a fantasia. Certo, há quem não goste mesmo do gênero, e não há problema com isso. Eu não gosto de chick-lit, por exemplo, não sou super fã de terror e não é tudo na ficção científica que me agrada. Não gostar não é problema, mas menosprezar é. 

Esse argumento de que "fantasia não tem nada a ver com a realidade" é falacioso. Você pode falar da realidade e dos sentimentos humanos em qualquer cenário. O Senhor dos Anéis, por exemplo, aborda conceitos que falam sim do nosso mundo e dos nossos anseios. Amizade, lealdade, honra, dever, questionamentos e dúvidas em relação a responsabilidades, corrupção e sede pelo poder, exploração do meio-ambiente... se forem me dizer que isso não tem a ver com a humanidade e o mundo em que vivemos, ficarei com um ponto de interrogação estampado na minha cara. 

O engraçado (e triste) é que mesmo dentre os amantes de fantasia temos constantemente discussões sobre essa questão da "realidade", e por vezes existe uma certa tendência a valorizar fantasias mais "sujas", como As Crônicas de Gelo e Fogo, por exemplo, como sendo histórias que mostram "as coisas como elas são" e, portanto, são menos "ingênuas". Já falei aqui sobre isso e acho que essa discussão é muito insípida, mas ela existe e reflete um pouco a visão das pessoas sobre a fantasia mais clássica. É como se ela fosse um gênero menor, "infantil", que não tem nada a ver com o mundo real "adulto". Mas é interessante pensar que todos os livros de fantasia que eu já li, incluindo aí mídias como gibis e mangás, sempre me trouxeram reflexões, fizeram parte da minha formação como pessoa e como mulher e continuam fazendo, mesmo agora que tenho 26 anos. 

A fantasia não é ingênua. Talvez seja, por vezes, idealista e até utópica, mas não é algo que se exime de reflexões profundas e discussões sobre ideais e valores (ou a falta deles, talvez...). Não é porque a fantasia fala de elfos, trolls, pôneis ou samurais voadores que não existirão ali conexões com as questões humanas. Seja qual for a roupagem de um personagem, seja qual for o cenário - um mundo feito de pirulitos, o planeta marte, a floresta de Lothlórien - a fantasia também fala sobre nós, sobre o nosso mundo. E muitas vezes vê esse mundo e as pessoas de forma mais positiva do que merecemos, confesso. 

Portanto, eu digo: não gostar de fantasia (ou de outros gêneros) não é um problema. O problema está em menosprezar algo como se fosse inferior por supostamente não ter conexão com a realidade (como se a realidade fosse essa coca-cola toda também, né, gente XD), o problema é arranjar uma desculpa repleta de julgamentos equivocados para justificar uma suposta intelectualidade superior, adulta e mais crítica. 

Termino minha reflexão meio confusa e mais superficial do que eu gostaria com uma citação de Tolkien que eu simplesmente adotei para a vida. Aí vai:

“Fantasy is escapist, and that is its glory. If a soldier is imprisioned by the enemy, don't we consider it his duty to escape?. . .If we value the freedom of mind and soul, if we're partisans of liberty, then it's our plain duty to escape, and to take as many people with us as we can!”

"A Fantasia é escapista, e essa é a sua glória. Se um soldado é aprisionado pelo inimigo, não consideramos que é seu dever escapar?... Se valorizamos a liberdade da mente e da alma, se somos partidários da liberdade, então é nosso óbvio dever escapar, e levar conosco tantas pessoas quanto conseguirmos!" 

E fica aqui essa reflexão também... nem todo escapismo é ruim. Não é muitas vezes escapando que nos tornamos livres?

13 comentários:

  1. Sábias estas palavras do mestre Tolkien, e realmente cabem muito bem com o conteúdo deste post.

    O gênero de fantasia sempre sofreu um pouco de preconceito nestas terras, curiosamente ainda mais no meio acadêmico; o ambiente em que menos deveríamos ver este tipo de pensamento engessado é geralmente aquele em que muitos preconceitos e dogmas encobertos por um falso véu de esclarecimento começam.

    Muitas pessoas criticam este gênero afirmando que ele não passa de escapismo, e isto é uma enorme incoerência. Especialmente porque há muitas pessoas que dizem isto enquanto usam o trabalho, estudos ou " causas de internet" como escapismo.

    Não há nada de errado em não se gostar do gênero em si, mas este menosprezo é algo muito tolo.

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  2. Esse ponto é muito interessante, Odin. Realmente, muitas pessoas criticam o "escapismo" da fantasia enquanto "escapam" de suas vidas de outras formas, algumas bem melhor aceitas pela sociedade.

    A questão do meio acadêmico também me deixa chateada, e é bem isso que você falou mesmo. Ao invés de esclarecimento e abertura, encontramos, muitas vezes, prepotência e intolerância. Triste.

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  3. O ser humano é a fonte de todos os paradoxos. Se menospreza a fantasia, ainda assim faz da obra de Tolkien e J. K. Rowling algumas das mais vendidas do mundo, além de O Pequeno Príncipe, obras de Kafka, Borges, Neil Gaiman, etc... Acho o Brasil um dos locais que menos se aproxima da fantasia, exceto em momento de "febre", porque sofremos com todas as "modas" do mundo. Concordo com o ponto de vista do artigo. Mas peço compreensão aos universitários. O que ocorre é uma corrida desesperada de autoafirmação, em que todos precisam ser descolados o bastante, mas também competentes em suas respectivas áreas, inteligentes e produtivos, com "uma imagem a zelar", lidando com amigos que são, de alguma forma, também concorrentes no futuro próximo. Assim como no começo da adolescência as pessoas sentem medo de ficarem ligadas às"coisas de criança", os novos adultos têm medo de se verem presos aos seus sonhos de adolescente, como a fantasia. É uma pena empobrecer a si mesmo, perdendo algumas de suas paixões e fechando a beleza da arte por uma coisa tão boba.

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    1. Olá, Philippe, seja sempre bem-vindo!! Seu comentário ressalta pontos muito interessantes... eu também acho que aqui no Brasil nos afastamos mais da fantasia, exceto, como você bem disse, em momento de "febre" e modinhas. O caso de Game of Thrones ilustra bem isso, mesmo quem diz não gostar de fantasia entrou no "hype", na época de O Senhor dos Anéis isso também aconteceu. Eu até acho bacana todo mundo prestando atenção e valorizando mais a fantasia, mas é duro porque sempre me parece uma coisa bem passageira e superficial...

      Eu compreendo bem o que acontece na época da graduação, Philippe, e concordo com você. É uma época complicada, de autoafirmação e descobertas, de competição por um lugar no mercado de trabalho, mas confesso que meu "desgosto" com esse tipo de comportamento advém do fato de que vi muitas pessoas mudando suas personalidades e se tornando mais arrogantes e competitivas apenas para se "encaixar" em um modo de vida que supostamente leva ao "sucesso". Quando se chega em mestrados e doutorados, então, essa política aumenta (se bem que posso dizer que tive sorte no mestrado, mas sei que tem gente que passa por perrengues absurdos e acaba se transformando para pior). Não é que me deixa enraivecida... me deixa triste mesmo. De verdade. Vi muita gente bacana mudando com a graduação e a pós. E lamento. Eu realmente acredito (talvez eu seja ingênua, mas vá lá...) que a gente não precisa agir com agressividade e arrogância para conseguir as coisas, e não precisa menosprezar formas de arte e expressão para se sentir mais adulto. Mas enfim, essa é outra discussão, e eu só usei esse exemplo da graduação de forma mais superficial mesmo, porque eu me lembro que estranhei muito tudo isso, já que eu esperava encontrar um ambiente diferente. Quer dizer, os alunos eu até entendia, mas os professores...

      Enfim, você tem toda a razão: é uma pena empobrecer a si mesmo por coisas tão bobas, deixando de lado coisas maravilhosas, paixões e gostos que fazem parte da gente. Obrigada pelo comentário enriquecedor!

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  4. Curiosamente, essas mesmas pessoas que esnobam a fantasia contemporânea são aquelas que jamais ousariam falar mal das fontes em que ela se inspira, como os clássicos gregos e as sagas medievais; e também de obras produzidas um pouco mais tarde por autores canônicos, porém de escopo fantástico, tais como algumas peças de Shakespeare, Os Lusíadas, a Viagem à Lua de Cyrano de Bergerac... Também não falam mal de Borges e Julio Cortázar (literatura fantástica, porém não épica) e nem de Gabriel García Marquez e outros autores do realismo mágico. Se bobear até são fãs de romance gótico e de terror (Frankenstein, Lovecraft, Poe...) Ou seja, a implicância é com o épico, a magia, a jornada do herói, as fadas e elfos, a literatura oral e popular. Tudo que lembre que no fundo eles ainda são crianças querendo provar que sabem tudo. Mas deixe estar, um dia amadurecem. :)

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  5. > "O ser humano é a fonte de todos os paradoxos. Se menospreza a fantasia, ainda assim faz da obra de Tolkien e J. K. Rowling algumas das mais vendidas do mundo, além de O Pequeno Príncipe, obras de Kafka, Borges, Neil Gaiman, etc."

    É essa a questão. Fantasia não é menosprezado pela maioria, mas por uma minoria acadêmica (que não inclui nem toda a Academia, e inclui uns chatos que nem acadêmicos são!)

    Acrescentando meus dois centavos, a literatura de Ficção científica e Fantasia precisa sempre de um elemento humano, algo pelo qual o leitor realmente se importe, ou fica chato. Esse algo pode ser um humano (dãr), um elfo, anão, robô, alienígena ou uma bola roxa. Alguém precisa sofrer algo, ou não há história, só descrição.

    Mais do que escapismo, ao transportar o elemento humano para fora da "realidade" a Fantasia e a Ficção Científica estão em busca justamente de identificar o que é que essa palavrinha realmente quer dizer. Tirando todo o resto, o que é que sobra, o que é "humano"?

    :)

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  6. Ana e Rodrigo, obrigada pelos excelentes comentários! Eu não tenho nem o que acrescentar. Realmente essa minoria de "chatos" XD não inclui toda a academia, e inclui também muitas pessoas que nem acadêmicos são. Ana, interessante isso que você falou sobre a fantasia contemporânea e as suas fontes de inspiração... muitas vezes o pessoal joga pedra no que é mais novo e não ousa conspurcar aquilo que é pano de fundo e inspiração para tudo isso. Enquanto isso, a gente se diverte :D. E também acho que sem o elemento humano, a coisas toda fica chata - com certeza e com esse elemento que acabamos nos importando, no final das contas!

    Obrigada, pessoal! Rodrigo, seja sempre bem-vindo, é uma honra tê-lo aqui no meu humilde bloguinho.

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  7. Que desabafo bom de ler, Liége. Não há o que menosprezar quando se fala de arte. Seja fantasia, terror, sci-fi, romance água com açúcar. O que torna um livro bom ou interessante é a capacidade do autor. A história pode ser antiga, o final esperado, mas se o escritor tem aquele algo a mais que nos encanta, não tem como não ler e não gostar. O primeiro livro que li foi Gargantua e Pantagruel, uma sátira aos costumes europeus do século XVII, os protagonistas: gigantes.

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    1. Oi, Claudia! Seja sempre bem-vinda por aqui! Concordo plenamente com você, não há o que se menosprezar quando falamos de arte, mesmo porque existem pessoas e pessoas, públicos e públicos... e, realmente, um bom autor nos prende seja qual for a história que ele está contando...

      Já ouvi falar bastante de Gargantua e Pantagruel, mas nunca li. Deve ser super interessante!

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  8. Liége, li esse seu texto faz um tempo mas só agora tive tempo de comentar... Vida corrida é fogo.

    Mas então, adorei as suas reflexões e me identifiquei com várias coisas que você falou. Também fiz Letras e sei como é difícil gostar de uma literatura que as pessoas desprezam academicamente.

    O que me salvou, de verdade, foi estudar literaturas em inglês. Diferemente da vertente de estudo acadêmico de literatura no Brasil (que tem um diálogo maior com a academia francesa), os acadêmicos de língua inglesa têm váaaaaaaaarios estudos sobre literatura de fantasia e não a vêem como algo menor, pelo contrário. Existem várias antologias de crítica de literatura de fantasia feitas por críticos especializados. Não é a toa que na Inglaterra existem até a Tolkien Society que tem como membros acadêmicos de universidades super conceituadas.

    Infelizmente o Brasil ainda tem uma mentalidade muito estreita em relação à fantasia.

    Se você quiser publicar esse texto lá no Livros de Fantasia (colocando o link pro seu blog, claro), fique à vontade. Pra mim esse é o tipo de texto que tem que chegar ao máximo de pessoas possível.

    Como sempre, você escreve super bem. :)

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    1. Puxa, puxa, muito obrigada, Melissa! Eu fiquei muito feliz que várias pessoas tenham lido esse texto e comentado! Escrevi como um desabafo, e percebo que muita gente sente o mesmo. Você tem toda a razão sobre essa questão de estudar literaturas em inglês. Eu tive literatura inglesa nos últimos anos da faculdade, porque fiz Letras com habilitação em inglês também, e foi uma experiência muito mais aberta. Não chegamos a estudar literatura de alta fantasia assim, mas vimos muito de literatura fantástica e de terror com enfoque mais sobrenatural. Eu gostava bastante, e percebia como esse gênero de fantasia era mais respeitado e estudado lá fora. Pois é, a Tolkien Society é uma instituição super séria... o Brasil realmente tem uma mentalidade mais fechada para essas coisas. Pior é que tem gente que se orgulha disso.

      Ah, se você não se importar eu vou publicar lá no blog sim! Nessa semana ou na outra! Afinal, foi um texto que suscitou uma discussão muito bacana por aqui. Gostei!

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  9. Cheguei atrasada, mas digo que, além das suas próprias palavras, Liége, o pessoal também colocou nos comentários o que me vinha à mente conforme ia lendo a postagem.

    Como a Melissa disse, a mentalidade de muitos é estreita. Pra quem não consegue ligar situações "de fantasia" com algumas coisas da realidade, é fácil mesmo falar que a fantasia é uma fuga. E tem mais... Tem gente que menospreza uma obra ou outra sem ao menos ter lido ou assistido, no caso de filmes. Sem base alguma, saem falando.

    Enfim... É complicado esse tipo de coisa >.<

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    1. Gisele, isso que você falou é bem verdade: tem gente que adora cultivar um menosprezo gratuito por certos tipos de coisa, sem nem mesmo conhecê-las. Tá, eu admito que todos nós temos lá as nossas implicâncias, mas eu costumo tentar conhecer um pouco de tudo antes de criticar algo, e se não conheço a fundo também não me meto a falar muito sobre aquilo. Se as pessoas fizessem isso mais em relação ao que não conhecem, acho que não teríamos tantos críticos desentendidos por aí, viu...

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