quinta-feira, 7 de maio de 2015

O Vento do Oeste... por Jahira Lafta! (Ou o possível prólogo de Coração de Areia)

Saudações, queridos leitores!!

Faz muito tempo que não passo aqui, eu sei. Mas não pensem que isso quer dizer que não estou produzindo nada, muito pelo contrário. Continuo escrevendo "O Despertar de Kathul" e em breve espero poder dar boas notícias por aqui!

Mas hoje eu gostaria de compartilhar outra coisa com vocês. Recentemente, o twitter da Revista Trasgo (♥) compartilhou novamente meu conto que foi publicado na terceira edição, "O Vento do Oeste". Fiquei muito contente e nostálgica e até tive uma amiga minha lendo o conto \o/!!! Aêêê!!!

Bom, isso me lembrou do meu provável próximo livro depois da trilogia de "O Enigma da Lua". Quem acompanha o blog sabe que estive desenvolvendo essa história há um tempinho. Ela se passa em Sawad, um reino de Edrim mesmo, mas com inspirações orientais, muitos toques da cultura e da mitologia árabe (e também com algumas poucas pinceladas da cultura indiana/hindu).

Daí que fiquei com vontade de postar o provável prólogo de "Coração de Areia", esse projeto de livro que já tem uns capítulos escritos. Por quê? Porque se trata da mesma história que é contada em "O Vento do Oeste", mas do ponto de vista de Jahira, a jovem que Farid vai resgatar. 

Estou gostando muito de escrever essa história e espero um dia poder disponibilizá-la ao público de alguma forma. Por enquanto, fiquem com esse pedacinho e espero que quem já leu "O Vento do Oeste" possa achar essa perspectiva nova interessante... e espero que quem não leu se interesse pela história! 

(P.S. Tudo o que se refere a esse livro está sujeito a mudanças :D. Só os deuses sabem como as coisas podem ir embora ou mudar em uma reescrita! Mas quem ler me diga o que acha!). 

(P.S. 2 Todas as lindas imagens não são da maravilhosa artista Orpheelin, que desenhou a Jahira e o Farid sem saber). 

***



Temo que minha história comece com uma tragédia.

Bem, talvez seja melhor dizer que minha história começa com uma tragédia que quase aconteceu. Mas, antes de falar sobre um assunto tão espinhoso, deixe que eu me apresente. Meu nome é Jahira Lafta e sou filha de Zayn e Amina Lafta. Eu nasci em Sawad, o coração de areia de Edrim. Se você não sabe o que isso significa, permita-me explicar.

Nascer em Sawad significa amar e temer sua terra. Significa sofrer as intempéries do tempo e o esquecimento de Safiah, a Deusa Lua. Significa temer o demônio do vento, Bahaal’zar, e sua febre vermelha. Bahaal’zar parece o dono do deserto e de nossos passos, mas ele não é. Nem ele nem suas tempestades, capazes de engolir cidades inteiras. Pelo menos é nisso que acredito... ou acreditava.

Mas, ainda não é hora de falar sobre Bahaal’zar. Voltemos ao início. Como já disse, nasci em Sawad, mais especificamente em Sadala, um pequeno, mas próspero vilarejo que fica quase na fronteira entre Qasif e Qasar. A cidade mais próxima de nossa terra é Mahafat, que ainda assim fica a dois dias de viagem. Por isso mesmo, aprendemos a ser autossuficientes. Graças a um pequeno oásis que nos abençoa, conseguimos cultivar tâmaras, cuja utilidade é inestimável no deserto. A tâmara é fonte de nutrição garantida e é fácil de ser conservada. Os caroços podem ser esmagados e transformados em ração para os camelos e as folhas das tamareiras, se manipuladas por mãos habilidosas, transformam-se em cestos e utensílios diversos. Graças a esses frutos, podemos negociar com os andarilhos da areia e comprar camelos, ovelhas e cabras. Eles apreciam muito o vinho que tiramos das tâmaras ao fermentá-las. Também temos um pequeno jardim onde plantamos, entre outras coisas, chá. Meu pai é o grande entusiasta dessa atividade, e temos até mesmo conseguido comercializar parte da produção.

São atividades insípidas perto das transações feitas nas rotas de comércio mais movimentadas e nas grandes cidades, eu sei. Somos, em verdade, um ponto na vastidão. Por vezes, eu tenho a impressão de que seremos engolidos pela voracidade do deserto, mas permanecemos ainda aqui, de pé, apesar de tudo. Já passamos fome e sede, mas em algum momento essas coisas desaparecem e o mel volta a jorrar do seio de Safiah para nós. Safiah din naan, que a Deusa nos abençoe e não nos esqueça, três vezes sobre o céu.

Se eu gostaria que as coisas fossem mais fáceis? Eu estaria mentindo se dissesse que não, mas, jamais me imaginei em outro lugar.  Assim são as pessoas de Sawad. Amamos nossa terra. Os anciões da tribo de Sannat dizem que ela já foi uma exuberante floresta, cujo fim alcançava as fronteiras do mundo. Eu não saberia dizer se isso é verdade, mas vamos nos ater a outras coisas. Espero que vocês possam me perdoar por qualquer incongruência.

Quando eu tinha quinze anos, o vento do oeste passou em Sadala. O vento do oeste é o vento de Bahaal’zar, e ele não traz nada além de dor e morte. Quis o destino que meu pai ficasse doente com a febre vermelha, a febre do vento. E eu... eu desapareci.

Existem certas coisas que acreditamos que nunca acontecerão conosco. Eu já tinha ouvido inúmeras histórias sobre as “noivas de Bahaal’zar”, como são chamadas as moças que desaparecem de suas casas e voltam meses depois, de repente, carregando um filho no ventre e sem se lembrar de nada do que aconteceu. Dizem que é o demônio do vento que as engravida, e posso afirmar com propriedade que sim, isso é verdade. Os filhos de Bahaal’zar com humanas são chamados de Ahmar. Os Ahmar não são diferentes de nós em seu âmago, mas existe uma centena de boatos sobre eles. É dito que não podem morrer de fome ou de sede, que não são atingidos pelo calor ou frio, que são quase imortais e que não têm sentimentos. Algumas coisas são verdadeiras, outras não. Uma das coisas que pude comprovar sobre eles é que conseguem ouvir e até mesmo encontrar seu próprio pai, se procurarem no vento.

Como sei disso? Bem, eu sei porque conheci um Ahmar que procurou no vento por Bahaal’zar e o achou.

Um dia, eu acordei nua, com as costas queimando sobre pedras e areia esturricada pelo sol. Não sabia o que tinha acontecido, só sabia que havia um homem de cabelos negros, pele morena e kaftan azul escuro à minha frente, sujo de sangue nas mãos e no pescoço ferido, aparente por entre os farrapos de sua cafia rasgada. Tentei fugir, mas tremia demais e estava tão apavorada que não consegui fazer muito além de erguer o tronco. Eu tinha quinze anos, afinal, não me lembrava de nada e estava nua à frente de um desconhecido. Esperava o pior.

Mas aquele homem estranho apenas tirou o manto que usava e me envolveu delicadamente, escondendo minha nudez. Mesmo em meu estado, consegui perceber que as mãos dele também tremiam. Tremiam e estavam vermelhas e pegajosas de sangue. Involuntariamente, comecei a chorar em silêncio ante aquela visão que não conseguia compreender em absoluto.

- Jahira Lafta – ele disse, a voz suave – Eu sou um primo distante de sua mãe, Amina. Eu fui visita-la há alguns dias e ela me pediu que eu a procurasse. Não se assuste. Não vou lhe fazer mal algum, eu prometo. Você havia desaparecido com o vento do oeste, mas está segura agora. 

Eu me levantei, não aceitando a ajuda que ele me oferecia com a mão. Estava assustada demais para tocar um homem. Mas, naquele momento, olhei-o em seus olhos pela primeira vez. Por Safiah, eram transparentes como janelas. E o que eu vi neles foi algo que, se não me ficou claro, também não tinha nada de maldade. Ele devia ter uns vinte anos, não mais. Ainda assim, eu não queria segui-lo. E se ele fosse um ifrit, um espírito do deserto me ludibriando? Duvidava que Bahaal’zar não estivesse ainda brincando comigo. Por outro lado, que escolha eu tinha?

Com os pés queimando, olhei ao redor e encontrei uma paisagem completamente vazia, inóspita, na qual uma falésia escura se erguia devorando o horizonte. Me senti enjoada olhando para aquele paredão de pedra cuja natureza parecia distorcida.  Não havia nada e nem ninguém ali, exceto por mim e por aquele homem que dizia ser primo de minha mãe. O sol brilhava acima de nossas cabeças, febril e vermelho. Eu estava em um pesadelo e sabia que não iria acordar tão cedo. Olhei para baixo e percebi que meus pés estavam sangrando. O cascalho onde pisava era afiado como uma faca.

Foi naquele momento que minhas pernas fraquejaram. Eu não consegui mais ficar de pé e então realmente não me restou escolha. O rapaz me pegou nos braços quando eu caí e me levou dali.

Dos três dias que passamos viajando eu me lembro de algumas coisas – foi um período confuso, de impressões fáceis de se perder, como a areia que escapa de nossas mãos. Me lembro de ter reconhecido o camelo que estava com o rapaz – era o camelo  de minha casa. Sabia daquilo por causa da rahla envolta em panos coloridos que havia em sua corcova. Aqueles panos haviam sido tecidos pela minha própria ammah, com a minha ajuda. Lembro que o rapaz também me deu uma trouxa na qual minha mãe havia colocado um kaftan limpo, uma cafia, babuchas e um bilhete amoroso com cheiro de jasmin. Foi aí que realmente passei a acreditar que aquele homem tinha alguma relação com a minha família.

Eu me vesti. Me recordo que, enquanto isso, ele fez o camelo se sentar, e assim que fiquei pronta ele encostou-me à  corcova do animal e lavou meus pés com a água de um odre de couro de cabra. Tirou alguns trapos limpos de sua algibeira e fez uma espécie de curativo com uma pasta estranha que também trazia em suas vestes. Naquele momento, por mais que estivesse cansada, notei que ele não fez o mesmo em relação aos próprios ferimentos. Depois disso, ele me ajudou a sentar na rahla do camelo. Foi quando ele disse que se chamava Farid.

Eu tive febre durante a jornada. Posteriormente, soube que eu chamei por minha ammah o tempo todo naqueles três dias. Eu não me lembro. Mas me lembro de quando estávamos perto de Sadala e eu falei, pela noite. Falei com ele pela primeira vez.

- Os ghuls – eu disse – Eles não nos atacam. Nem mesmo aparecem.

O rapaz ficou em silêncio. Tentava acender uma fogueira com as fezes secas de nosso camelo. Depois de alguns segundos, falou:

- Nenhum mal vai nos atingir – ele disse, soturno, com uma certeza estranhamente inabalável – Durma, Ibn Lafta. Amanhã, você estará em casa.    
       
- Perdoe-me, mas... quem é você? – perguntei – Minha mãe nunca me falou de um primo chamado Farid. O senhor inventou essa história?

Ele não respondeu.

- Escute – eu continuei, com a voz carregada – Não sei se eles lhe prometeram a minha mão em casamento. Mas, eu não me casarei com alguém que não conheço, Ibn Farid. Não me casarei...

- Ninguém me prometeu nada, Ibn Lafta – ele disse, quase ríspido – E eu também nada pedi, nem a sua mão nem o ouro de sua família. Agora durma e descanse. Não se preocupe, pois não há preço algum a se pagar.

Eu não entendia. Não conseguia compreender. Quem era aquele homem que mal falava? Os olhos pareciam mais apagados a cada dia. O ferimento do pescoço havia desaparecido. Foi então que um arrepio gelado como a brisa noturna do deserto subiu pela minha espinha. Lembrei-me das lendas e boatos que já ouvira e minha mente juntou as peças do quebra-cabeça: aquele rapaz era um Ahmar. Por Safiah, sim, ele só podia ser um Ahmar. Os filhos de Bahaal’zar conseguiam procurá-lo no vento e assim Farid havia me encontrado. Como minha mãe havia achado um Ahmar para ajudá-la?
Eu dormi pensando nisso, encolhida sobre a areia. E quando abri os olhos, estava em Sadala, em minha cama, e minha mãe acariciava meu rosto, lágrimas de alegria em seus olhos e uma canção de ninar nos lábios.


Era apenas o começo... 

8 comentários:

  1. Ficou muito legal, Liège! Espero que continue inspirada e logo nos brinde com mais uma bela história. Beijos!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oba!!! Obrigada, Ana!! Sua opinião é muito importante! Selo Ana Lúcia Merege de aprovação :D!

      Eu também espero continuar inspirada para ir melhorando minha escrita cada vez mais... que os deuses nos ouçam!

      Um beijo!

      Excluir
  2. Já disse isso antes, e sei que sou suspeito para falar, mas esse prólogo ficou incrível. Ele consegue, em poucas páginas, passar tanto o clima do cenário quanto as personalidades dos dois protagonistas principais.

    Uma trabalho magistral!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, querido Odin! Sempre gentil... ♥

      Excluir
  3. Amanda Silversong9 de maio de 2015 08:50

    Oie^^

    De onde vem tantas ideias lindas assim para histórias??? Meus Deus, desde o começo eu fui fã de carteirinha do Vento do Oeste, mas cada vez que leio um "pedacinho" da história desses personagens eu fico doida para saber mais!

    É muito difícil encontrar histórias de temática árabe fora as lindas 1001 Noites, e esse eu trabalho tem tudo para arrasar assim como o Enigma da Lua (terceiro livroooo, cadê vocêêêê... ^^)

    Brincadeirinha, sem pressão! Eu sei que você tem um monte de coisas para fazer, e se eu ficar aporrinhando muito minha irmã me dá bronca de novo ^^

    Beijos da Amanda^^

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Amanda!!

      Eu nem tenho tantas ideias assim, me acho uma escritora bem lerdinha para ter ideias XD. Mas "Coração de Areia" é um trabalho que vem me trazendo muito contentamento. Eu sei como é difícil achar histórias com essa temática... :P

      Hahahahaha, o terceiro livro está vindo, pode ficar sossegada! Logo, logo vocês vão poder saber o que vai acontecer com o Laucian, Elora, Valenia, Myron e companhia! Já adianto que muitas lágrimas e poder do amor esperam todos XD! Espero que os leitores gostem do final (meeedo)!

      Um beijo no coração e obrigada por sempre estar por aqui, Amanda! Fala para a sua mana que não precisa te dar bronca, sou eu que preciso ser menos lerda mesmo!

      Excluir
  4. Amei ler a história contada pela Jahira! Esse universo realmente é mto cativante! Q venham mais histórias, por favor!! :D

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ai, que bom que vocês gostaram!! Fico muito contente! Obrigada, Bruna! Vou escrever mais histórias sim, vocês verão XD!

      Excluir